
Há algo de profundamente contraditório nas cenas que se repetem, ano após ano, em diversas cidades da Bahia — e que, mais uma vez, se evidenciam também em Paulo Afonso. Em plena Semana Santa, período que deveria evocar reflexão, humildade e transformação interior, assistimos à teatralização da caridade: políticos distribuindo peixes de porta em porta, com câmeras estrategicamente posicionadas para capturar lágrimas, sorrisos e gratidão.
Mas não nos enganemos. Isso não é solidariedade — é espetáculo.
A Bíblia é clara ao tratar da verdadeira essência da doação. Em Evangelho de Mateus 6:3, Jesus ensina: “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita.” Ou seja, o bem deve ser feito em silêncio, sem plateia, sem marketing, sem interesse oculto. A caridade exibida perde seu valor espiritual e se transforma em moeda política.
O que se vê, no entanto, é o oposto do ensinamento de Cristo: a instrumentalização da pobreza. O alimento que deveria saciar a fome imediata torna-se ferramenta de promoção pessoal. A dor alheia vira conteúdo. A necessidade vira narrativa.
E pior: cria-se a ilusão de cuidado, enquanto a realidade estrutural segue abandonada.
A Semana Santa não pode ser reduzida a um palco de oportunismo. Ela é, antes de tudo, um chamado à coerência entre fé e prática. E isso vale para todos — inclusive, e principalmente, para aqueles que ocupam cargos públicos. Até quando aceitaremos o pão e o circo?
A população de Paulo Afonso não quer migalhas. Quer dignidade, trabalho e futuro. E isso não se entrega em sacolas — se constrói com responsabilidade.