Opinião

Paulo Afonso - Bahia - 10/02/2026

Dizem que na política tudo acontece “no calor do momento”. Confesso que nunca engoli muito bem essa explicação.

Itaíbes Paiva
Ilustração

Outro dia, assistindo a um daqueles debates cheios de tensão, em que as palavras saem rápidas e o tom sobe facilmente, fiquei pensando: será que é impulso mesmo? Ou será que cada frase já foi pensada antes, medida, ensaiada até? Na política, até o silêncio tem intenção. Um voto contrário não é apenas um voto. Uma ausência pode ser mais barulhenta do que um discurso inflamado.

Quase sempre há uma conta sendo feita ainda que ninguém admita. Quem aplaude? Quem criticar? Fortalece a base? Isso me desgasta? O que parece espontâneo muitas vezes tem endereço certo. Um discurso pode não resolver o problema de ninguém, mas pode movimentar apoiadores, criar um fato novo ou desviar o foco de outro assunto mais incômodo.

Quando alguém diz que “não mediu as consequências”, eu desconfio. Política sem cálculo não é sinal de bravura; é imprudência. E imprudência, nesse ambiente, costuma custar caro para quem pratica e, principalmente, para quem depende das decisões tomadas.

No fundo, a questão nunca é se houve estratégia. Sempre há. A pergunta que realmente importa é outra: essa estratégia foi pensada para o bem coletivo ou apenas para manter um projeto pessoal de pé?

Talvez a política fosse menos desacreditada se essa resposta fosse mais transparente. Enquanto isso, seguimos observando atentos porque, gostemos ou não, quase nada na política acontece por acaso.


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