
Há pessoas que são corajosas para enfrentar multidões, mas travam diante de uma única pergunta. Eu, por exemplo, quase arranquei o lenço de Bell Marques (se o tivesse encontrado)… mas não tive coragem de fazer uma pergunta simples ao meu próprio colega.
Sim. Porque o mais curioso dessa história não é o boato.
É o silêncio.
Por anos, ouvi — ou melhor, absorvi — aquela narrativa mal explicada de que Fredson, compositor de “Diga Que Valeu”, teria sido prejudicado. E como todo bom nordestino emocionalmente comprometido com a justiça poética, eu abracei a causa. E planejei até a vingança contra o vilão Bel Marques.
O detalhe é que eu convivia com ele. Não com o Bel, mas com o Fredson, alguns anos mais velho que eu, na Bahia.
Estive com Fredson várias vezes. Conversas descontraídas, encontros profissionais, aquele clima natural de quem partilha estrada, música e histórias. E, ainda assim, eu nunca perguntei:
— Fredson, aquilo foi verdade?
Nunca.
Minha timidez vestiu terno, sentou à mesa comigo e disse:
“Não cria clima. Vai que é assunto delicado. Vai que dói. Vai que você descobre algo que não sabe lidar.”
E assim, enquanto eu preservava o conforto da minha omissão, alimentava por dentro uma convicção silenciosa contra o Chiclete com Banana.
Veja que ironia elegante: eu defendia meu colega… sem sequer confirmar com ele se havia algo a defender.
Isso diz muito sobre nós, não diz?
Às vezes, não é a maldade que cria mal-entendidos.
É a timidez.
A timidez tem fama de virtude — parece modéstia, parece delicadeza. Mas, quando mal posicionada, ela vira cumplicidade com a dúvida. Ela protege o constrangimento momentâneo… e prolonga o equívoco por anos.
E eu seguia assim: cordial com Fredson, cordial com todos, mas por dentro guardando um pequeno tribunal imaginário onde o réu usava lenço branco.
Até que surge, numa quarta-feira de cinzas, o senhor Calvo.
Irmão de um músico famoso da Bahia, mas residente em Maceió — como quem escolheu a brisa mais calma do que o barulho do trio elétrico. Ele trazia aquela autoridade mansa de quem conhece os bastidores, mas não faz espetáculo deles.
E numa conversa absolutamente comum — dessas que começam falando de carnaval e terminam desmontando certezas — ele esclareceu tudo.
Não houve sacanagem.
Não houve injustiça nos moldes dramáticos que eu havia imaginado.
Houve realidade — que quase nunca é tão novelesca quanto os boatos.
Naquele instante, eu senti duas coisas ao mesmo tempo: alívio… e um leve constrangimento.
Alívio por não precisar mais odiar ninguém em pensamento.
Constrangimento por perceber que eu poderia ter resolvido aquilo anos antes — com uma pergunta simples.
Mas não fiz.
E aqui está o ponto mais humano da história:
Não foi a falta de acesso que me impediu de saber a verdade.
Foi a falta de coragem delicada. A timidez.
Perguntar exige exposição. Exige aceitar que talvez você esteja errado. Exige abrir mão do roteiro mental confortável. E, no fundo, eu preferi manter a narrativa interna intacta a correr o risco de parecer ingênuo.
A verdade é que eu quase cometi uma injustiça emocional por causa de um silêncio.
Hoje, penso que a música ganhou um significado ainda mais bonito.
“Diga que valeu” deixou de ser apenas sobre amor que termina.
Virou sobre histórias que quase se distorcem.
Sobre sentimentos que quase se contaminam.
Sobre impulsos que quase se concretizam — como aquele meu desejo teatral de arrancar um lenço castigando um mau feitor do axé music.
No fim, nada foi arrancado.
Nem lenço.
Nem amizade.
Nem dignidade.
E talvez o que realmente valeu não foi só o amor da música — foi a lição:
Às vezes, a verdade está a um metro de distância, sentada à nossa frente…
e a única coisa que nos separa dela é a timidez.
E isso, convenhamos, é mais difícil de enfrentar do que qualquer trio elétrico na Barra-Ondina. E seria até mais fácil arrancar o lenço do Bel Marques num aeroporto qualquer. Este era o plano louco.... Kkkkkkk
Fonte/Autor: Luciano Júnior