
Na mesa ao lado, alguém lia o cardápio como quem resolve um enigma hostil. Moveu os lábios, franziu a testa, apontou o dedo para a palavra e chamou o garçom:
— O que é isso aqui?
Não era francês. Não era latim. Era português.
Foi ali que pensei: o brasileiro não odeia ler. Ele odeia entender. Porque entender exige pausa, esforço, desconforto. Ler, não: ler pode ser rápido, automático, quase decorativo. Por isso o termo correto — e sim, ele existe, foi medido, confirmado e reiterado — é analfabetismo funcional. A pessoa lê, mas o sentido não chega a acontecer. As palavras passam como paisagem vista da janela do ônibus.
E posso mostrar um exemplo, desse momento. Todo fim de ano, o país prova o ponto. Canta-se Boas Festas como se fosse mensagem de alegria quando o que há ali é cansaço, ou melhor, muita tristeza e amargura numa única música. O sujeito da canção não celebra: constata. O ano acaba, outro começa, e nada muda. O pedido ao Papai Noel não é infantil; é desesperado. Não há promessa, há insistência. Não há esperança, há hábito. Mas ninguém escuta isso, porque escutar exigiria ler a letra — não apenas repeti-la. E o brasileiro é um analfabeto funcional...
Talvez por isso Assis Valente, o famoso baiano autor da música, siga sendo tratado como compositor “alegre”, quando sua biografia grita o contrário. Sequestrado ainda criança, arrancado do próprio eixo antes mesmo de saber quem era, cresceu com a sensação permanente de não pertencer. Conheceu sucesso, sim, mas nunca estabilidade e amor familiar, talvez. Tentou várias vezes interromper a própria vida, até conseguir. Não como gesto poético, mas como exaustão. A obra já dizia. A vida confirmou. O leitor — esse leitor apressado e analfabeto funcional — nunca conectou os pontos. E canta a música como se fosse alegre...
A crônica está aí: somos um país que consome palavras sem mastigar. Lemos manchetes, não textos. Letras, não sentidos. Por isso: confundimos crítica com ataque pessoal; ironia com ignorância; dor com exagero; repetição com tradição. E continuamos ignorantes...
O problema não é só falta de escolas "competentes" apenas. É falta de treino do silêncio, da atenção, da escuta. Ler, de verdade, desmonta certezas — e o brasileiro prefere, talvez, mantê-las, mesmo tortas.
Assis Valente não foi mal compreendido por acaso. Foi mal compreendido porque aqui se canta antes de entender, opina-se antes de ler, reage-se antes de pensar. Sua música segue viva, mas anestesiada. Como tantas palavras no Brasil: presentes, sonoras, vazias de sentido.
No fim, talvez seja isso: não é que não saibamos ler. É que aprender a entender dá trabalho — e o país, historicamente, sempre achou trabalho demais. E seguimos analfabetos funcionais pelos séculos...
Fonte/Autor: Luciano Júnior