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Opinião

Paulo Afonso - Bahia - 25/12/2025

O Presépio da Esquina

Divulgação

Na correria dos preparativos do Natal, a gente passa apressado. Passa com sacolas, com listas, com cartões estourados e paciência estourando logo atrás. Passa correndo para montar o presépio da sala, ajeitar a palha, alinhar os reis, conferir se o menino não caiu de novo — porque menino de presépio tem vocação para a queda desde o nascimento.

E passa, quase sempre sem ver, pelo presépio da esquina.

Ele não tem luz piscando nem trilha sonora em looping. Não ganhou curtidas nem comentários elogiosos. É um presépio vivo, desses que incomodam porque não cabem na decoração. Um recém-nascido envolto em panos improvisados, um casal dividido entre o encanto e a aflição — porque amar também dá medo quando falta tudo. E os animais, silenciosos, testemunhas fiéis, observando com aquele olhar antigo que parece dizer: “de novo isso…”.

O cenário é incrivelmente parecido com aquele de dois mil anos atrás. E talvez seja justamente por isso que a gente finge não ver. Porque é difícil admitir que, depois de tanto tempo, continuamos repetindo a cena sem aprender a lição.

Corremos às lojas para comprar imagens da Sagrada Família em situação de abandono, discriminação e perseguição. Colecionamos o sofrimento em resina, madeira e porcelana. Mas esquecemos o detalhe principal: aquilo não era para virar peça decorativa. Era um recado. Um aviso. Um “por favor, não deixem isso acontecer de novo”.

Mas deixamos.

Na noite de Natal, com o presépio, de gesso,  devidamente montado, a mesa farta e a foto garantida, esquecemos o presépio vivo da esquina. Esquecemos, inclusive, do aniversariante. Em troca, ficamos encantados com o velho barbudo que, com habilidade invejável, conseguiu sequestrar a festa inteira. Trocamos a manjedoura pelo trenó, o silêncio sagrado pelo “ho ho ho” importado e a mensagem profunda por embrulhos coloridos.

Nada contra o bom velhinho — ele é simpático, reconheço. Mas é curioso como ele, na maioria das vezes, nem precisa entrar pela chaminé enquanto o aniversariante continua do lado de fora, batendo de leve, para não incomodar.

Talvez o verdadeiro espírito do Natal esteja justamente naquele presépio esquecido da esquina. No incômodo que provoca. No espelho que oferece. No convite silencioso para desacelerar, olhar e agir. Porque montar presépios de geeso é fácil. Difícil mesmo é não permitir que eles precisem ser montados novamente na vida real.

E isso, convenhamos, não vem em embalagem para presente.

Será que a família do presépio da esquina ganhará, ao menos, as sobras da Ceia Natalina?!

Fonte/Autor: Luciano Júnior

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