
Há um fenômeno curioso acontecendo diante dos nossos olhos — ou melhor, através deles, já que os mantemos colados em telas como quem consulta oráculos luminosos.
Nunca estivemos tão próximos. Nunca estivemos tão longe.
Se alguém tivesse dito a nossos avós que, no futuro, conversaríamos diariamente com pessoas que não vemos há anos — enquanto ignoraríamos quem está sentado ao nosso lado — eles teriam rido, acendido um cigarro e mandado a gente trabalhar.
Mas aqui estamos: somos uma geração que toca mais telas do que mãos. O distanciamento físico, inicialmente fruto de circunstâncias, virou hábito, depois conforto, e por fim… rotina.
A tecnologia, claro, fez sua parte. Prometeu encurtar distâncias — e encurtou. Prometeu aproximar pessoas — e aproximou. Prometeu substituir o contato — e, ah, isso ela fez com entusiasmo.
Hoje, podemos falar com alguém do outro lado do planeta em três segundos — mas hesitamos em bater na porta do vizinho. Enviamos áudios longos o suficiente para virar podcast — mas não atravessamos a rua para dizer “oi”. Gostamos de fotos de abraços — mas desaprendemos a praticá-los.
É um tipo de contradição elegante, quase poética: a proximidade digital nos oferece companhia enquanto aperta, lentamente, o botão de mudo na nossa sensação de presença.
As telas fazem o papel do abraço fácil: não exigem deslocamento, não pedem tempo, não cobram disponibilidade emocional. Afinal, ninguém precisa estar realmente presente — basta parecer.
E nós aceitamos isso com uma naturalidade espantosa. Como quem troca café por descafeinado: o gosto lembra, mas a alma sente falta.
O contato físico virou artigo de luxo, quase uma experiência premium. Quando alguém encosta no nosso braço, o corpo leva um susto.
Quando uma conversa acontece sem a mediação de pixels, estranhamos a fluidez, como se tivéssemos esquecido a coreografia.
E o mais interessante: não é solidão. É um tipo novo de povoamento interno — estamos cercados de vozes, mensagens, rostos, mas todos ancorados num mar onde ninguém molha o pé.
A proximidade digital, generosa e sedutora, nos dá a impressão de que estamos sempre acompanhados. Mas é uma companhia que se dissolve no ar quando o celular descarrega.
O corpo, coitado, fica esperando. Esperando um toque real. Esperando a pausa que não chega. Esperando ser convidado de volta para o mundo concreto.
E talvez a grande contradição do nosso tempo seja essa: construímos pontes brilhantes de LED entre nós — e esquecemos de atravessá-las.
No fundo, sabemos que a vida acontece no espaço entre dois corpos, não entre dois aparelhos. Que nenhuma notificação vibra como um abraço. Que nenhuma chamada de vídeo devolve o calor de olhos que se encontram sem delay.
Mas seguimos, porque é fácil, rápido, eficiente — tudo o que o afeto, ironicamente, nunca foi. E, ainda assim, permanece uma esperança silenciosa de que um dia a gente volte a se tocar com naturalidade. De que o físico recupere seu território. De que a tecnologia volte ao que deveria ser: meio, não substituto. Até lá, seguimos equilibrando duas formas de proximidade: a que preenche a tela — e a que preenche o peito.
E, convenhamos… a segunda ainda tem uma superioridade que o Wi-Fi jamais alcançará.
Fonte/Autor: Luciano Júnior