
Engraçado como a vida funciona.
A mesma empresa que tacava Merthiolate na gente — aquele líquido que ardia tanto que a criança saía do corpo por alguns segundos — agora vende o Mounjaro, a agulhinha milagrosa que promete derreter gordura com a delicadeza de um elogio inesperado.
E olha que no Merthiolate, além da ardência, tinha mercúrio. Terrível veneno. Sim, mercúrio.
E a gente achando que o perigo era só a mãe segurando nosso braço com força suficiente pra diplomar em enfermagem. Agora tudo é bonito, moderno, cheio de promessa: “Uma picadinha por semana e você vira outra pessoa.”
Pois é. O Merthiolate também prometia coisas… e cumpria ardendo e guardava a ardência MAIOR e mortal em segredo.
O brasileiro, claro, já entrou na fila da magreza instantânea. Porque dieta cansa, academia dá preguiça, e esperar resultado é um conceito ultrapassado. A gente quer chegar magro na sexta, e não importa o que aconteça no sábado.
Mas aí vem a pergunta, quase uma certeza maldosa — aquela que cutuca a consciência: Será que não tem algo pior no Mounjaro do que ser gordinho? Porque, sinceramente, se já enfiaram mercúrio no nosso joelho sem cerimônia, quem garante que agora não tem outra surpresa esperando para ser descoberta daqui a uns cinco anos? Mas ninguém quer pensar nisso. Dá trabalho. Pensar emagrece menos que a injeção.
No fim, a vida segue o padrão Mertiolate: primeiro arde, depois mancha, e só muito depois, se sobreviver, a gente descobre o ingrediente secreto, mortal.
A diferença é que, dessa vez, nem ardência tem. E é aí que eu fico preocupado. Quando não arde, meu caro… é porque o problema vem embalado no “depois a gente vê”.
Fonte/Autor: Luciano Júnior