
A chuva tem seus próprios modos de conversar com a terra. Às vezes chega mansa, como quem pede licença, espalhando frescor depois de dias quentes. Outras vezes despenca bruta, sem cerimônia, lembrando que a natureza tem ritmos que o homem jamais controlará.
Há chuvas que amenizam: aliviam o pó das estradas, lavam as ruas cansadas e devolvem ao ar um cheiro de renovo. É nessa hora que o agricultor sorri, porque sabe que a água que cai do céu não é apenas água é promessa, é semente, é vida anunciada. Para muitos, a chuva é a resposta silenciosa de uma prece antiga.
Mas há também a outra face. A chuva que transborda rios, arrasta casas, derruba barrancos e assusta famílias que já não têm muito a perder. Essa mesma água que alimenta a plantação pode devastar, quando chega sem freio, quando encontra o que o tempo e o descuido deixaram vulnerável. Porque, na verdade, não é a chuva que destrói é a somatória de descasos, improvisos e desigualdades que tornam alguns mais expostos que outros.
Ainda assim, a chuva é dádiva. Não deixa de ser. É o ciclo que move o mundo, que enche os reservatórios, que mata a sede, que alimenta rios e renova o verde. A humanidade é que precisa aprender a conviver com ela: a se preparar, a respeitar, a entender que água demais ou água de menos são lições do mesmo livro.
No coração do sertanejo, a chuva sempre foi bênção. Cada gota que cai é lembrança de que Deus ainda olha pela terra. Mas no coração de quem sofre com alagamentos, cada trovão é um aviso de que talvez falte mais cuidado humano do que divino.
A chuva é isso: contradição e esperança. É vida que escorre pelos telhados, é medo que corre pelas ruas, é sonho que brota no chão molhado. É o céu dizendo que, mesmo em excesso ou escassez, a vida continua se refazendo entre uma nuvem e outra.
No fim das contas, a chuva é uma bênção não porque é sempre suave, mas porque nos lembra, a cada temporada, que estamos todos sob o mesmo céu… e que o desafio está em aprender a viver com o que ele nos dá.
Fonte/Autor: Itaíbes Paiva