
Algo estranho paira no ar da nossa cidade. Uma espécie de uruca, talvez um trabalho sombrio, talvez apenas o reflexo de tempos conturbados. O que quer que seja, precisa ser compreendido.
Há uma inquietação que se instala justamente onde se esperava beleza. Uma nuvem densa e silenciosa cobre nossos dias, tão pesada que até as caraibeiras parecem ter perdido a vontade de florescer.
É como se forças ocultas disputassem espaço, sufocando o que realmente importa. A cidade, antes vibrante, agora parece caminhar devagar, arrastando os próprios sonhos.
Os muros estão cheios de cores, mas as pessoas andam cinzentas. O riso anda raro, e o entusiasmo, contido.
Nunca, em minha memória, pairou sobre nós algo tão inusitado e possivelmente nocivo. A maldade, sorrateira, tem se espalhado e o mais assustador é que muitas vezes ela se disfarça de boas intenções.
A natureza, sábia e paciente, tenta nos avisar. Ela floresce e desbota, como quem grita em silêncio: “Cuidem do que é vivo, antes que morra também o que é belo.”
O poder, onde quer que se instale, atrai luz e sombra. E talvez seja isso o que sentimos uma disputa invisível entre o que queremos ser e o que estamos nos tornando.
Há vaidades travestidas de liderança, ambições mascaradas de progresso. Enquanto isso, o povo esse sim, o verdadeiro coração da cidade tenta resistir, continuar, acreditar.
Mas ainda há tempo. Sempre há.
Basta olharmos uns para os outros com a mesma atenção com que olhamos o pôr do sol sobre o rio. Precisamos devolver à cidade o que ela nos oferece todos os dias: abrigo, esperança e vida. Que o vento leve embora essa névoa pesada e que a luz volte a encontrar caminho entre as caraibeiras.
Fonte/Autor: Itaíbes Paiva