
"A única coisa que mete medo em político é o povo na rua”. A frase de Ulysses Guimarães, o Senhor Constituinte, continua fazendo sentido e embalou as últimas semanas no Brasil. Prova disso foi o sepultamento, na última quarta-feira (24), da chamada PEC da Bandidagem, rejeitada por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ). Não foi um enterro fácil. Afinal, o texto que impedia a abertura de ações contra parlamentares sem autorização prévia deles mesmos foi aprovado com folga na Câmara dos Deputados, levando milhares de pessoas às ruas em protesto, inclusive em Salvador. O que se viu no Senado depois disso foi uma mudança de rota diante do medo da mobilização popular.
O tamanho do absurdo
A PEC da Bandidagem (ou Bandidagem, como ficou conhecida depois) beneficiava deputados e senadores em processos criminais. O STF só poderia abrir alguma ação contra os parlamentares mediante autorização prévia do Congresso. Na prática, um passe livre para cometer crimes sem que fossem julgados.
Eles sentiram a pressão
A rejeição da PEC entra em consonância com o que disse Otto Alencar (PSD-BA), presidente da CCJ, na sua passagem pela radinha, dias antes da votação no colegiado, reiterando o que já havia dito em outras ocasiões: “Uma matéria dessa não pode ser alterada para voltar para [a Câmara]. Tem que ser enterrada, sepultada com a votação dos senadores”, afirmou. Assim foi.
Partidos como União Brasil e PDT, que tinham orientado seus deputados a votarem a favor da PEC, viraram a casaca no Senado, sem constrangimento.
Constrangimento mesmo sentiram alguns deputados e quem os assistiu justificando, nas redes sociais, seus votos a favor da Bandidagem. Foi o caso de Mário Negromonte Jr (PP-BA), que chegou a dizer que sentiu como se tivesse sofrido um golpe ao perceber mudanças no texto. Silvye Alves (União-GO) recorreu ao famoso “quem me conhece sabe” e disse ter sido ameaçada por pessoas "influentes" do Congresso.
Merlong Solano (PT-PI) preferiu não mostrar as caras e se desculpou apenas com uma nota de retratação. Pedro Campos (PSB - PE), irmão do prefeito do Recife João Campos que é considerado como uma voz promissora do campo progressista, também votou a favor da PEC, mas alegou uma “tentativa de derrubar” o projeto de anistia aos envolvidos na trama golpista. Disse ainda que vai entrar com um mandado de segurança no STF pela anulação da votação.
Fonte/Autor: Juliana Lopes e Mariana Bamberg