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Opinião

Paulo Afonso - Bahia - 20/08/2025

Onde tudo começou! Tapera de Paulo Afonso

Divulgação

No dia 19 de agosto, Dia do Historiador, Paulo Afonso acordou sob um véu de chuva fina. Dessas chuvas que não molham a terra de imediato, mas umedecem a alma. Muitos disseram: era o céu ainda chorando o mestre Galdino. E talvez fosse mesmo. Afinal, perder um historiador é como perder um tradutor do tempo: sem ele, o presente fica meio órfão do passado.

Mas justo nesse dia de luto e lembrança, veio também o anúncio de futuro: estava oficializado (e o mestre Galdino opinou e votou por esta escolha antes de partir) o domínio www.tapera300anos.com.br, espaço que guardará a memória dos 300 anos da Tapera de Paulo Afonso. Ali, em breve, textos, imagens, vídeos, relatos e pesquisas estarão à disposição não só como arquivos, mas como pontes vivas entre gerações. E também com flash em redes sociais com suas limitações.

E que história tem essa Tapera! Muito antes da Chesf, antes até do traçado das cidades vizinhas de mais idade, ela já era pouso de boiadas, já era referência. Nasceu como ponto de apoio da Casa da Torre, aquele vasto empreendimento colonial que marcava a expansão portuguesa no sertão. Era chão de passagem das boiadas, lembrado pelos escritores como pouso necessário, descanso para os homens e respiro para os animais. O gado, que moldou a economia e a cultura sertaneja, encontrou na Tapera uma estação de tempo — e o tempo, sabemos, gosta de fincar raízes nesses lugares de travessia. E, ao som da cachoeira!

Séculos depois, a mesma Tapera serviu de suporte para outro projeto de dimensões imensas: a construção da Chesf. Foi ali que engenheiros, operários e visionários encontraram abrigo primário, apoio e base para erguer uma obra que mudaria não só a paisagem, mas o destino de toda a região. De pouso de boiadas a berço da eletricidade, a Tapera é um testemunho do quanto a história é feita de continuidades improváveis.

 

Por isso, celebrar seus 300 anos é mais que relembrar pedras antigas ou muros gastados: é reconhecer que dela brotaram os fios daquilo que hoje chamamos de Paulo Afonso. A Tapera é raiz e é semente. É memória de resistência, de trabalho e de fé.

E, para garantir que essa memória não se perca, forma-se um coletivo de guardiões: historiadores, escritores, professores, engenheiros, arquitetos, turismólogos, padre — todos com nomes e rostos que agora também entram para a própria história. São eles:

Antônio Silva Galdino

Antonio Bartolomeu Silva

Cleonice Vergne

João de Sousa Lima

José Luciano dos Santos Júnior

Luiz Rubem

Lúcia Teixeira

Marcus Vinícius Ribeiro de Moraes

Marcos Vinicius Moreira Gomes

Osmar Borges

Padre Luiz Tibúrcio

Roberto Ricardo do Amaral Reis

Sandro Walmar

Tiago Almeida

Jovelina Ramalho

Luís Guerra

Cada um, à sua maneira, assume o bastão deixado pelo mestre Galdino, lembrando-nos de que o historiador não é apenas quem escreve sobre o passado, mas quem impede que o futuro se esqueça de onde veio.

Assim, entre o luto e a celebração, o 19 de agosto revelou sua ambiguidade fecunda: lágrimas que eram também batismo. Pois se o historiador é jardineiro da memória, cabe a nós regar o que a Tapera semeou. E naquela manhã, a chuva parecia entender isso melhor que qualquer discurso.

Fonte/Autor: Luciano Júnior

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