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Opinião

Paulo Afonso - Bahia - 26/05/2025

Homenagens que chegam tarde demais

Divulgação

Na calçada da cidade, tem um banco com o nome de alguém que já não está mais aqui. Uma rua, uma escola, um posto de saúde… todos carregam nomes de pessoas que fizeram muito pela comunidade, mas que só foram lembradas oficialmente depois que partiram. É um costume antigo, quase ritual. A cidade espera a morte chegar para então se lembrar da vida.

É curioso e um tanto triste, perceber como deixamos passar o momento certo de homenagear. Esperamos o silêncio do túmulo para erguer placas, entoar discursos e batizar espaços públicos com nomes que, por justiça, já deviam estar ali há muito tempo. A homenagem vira consolo para os que ficam, quando poderia ser um reconhecimento para quem ainda está entre nós.

Tem gente que dedicou a vida inteira à saúde do povo, à educação das crianças, ao cuidado com os mais vulneráveis. E mesmo assim, só recebe um aceno da cidade quando já não pode mais ouvir, ver ou sentir. Como se fosse necessário morrer para merecer um gesto de gratidão.

A explicação costuma estar numa lei. Uma regra fria, sem alma, que impede homenagens em vida como se fosse perigoso reconhecer méritos antes da última despedida. Mas quem viveu para servir, para construir, para fazer a diferença, merece mais do que flores em um velório ou palavras bonitas no obituário.

Monumento sem vida é só pedra. Placa em muro sem abraço é só ferro. O verdadeiro valor está em fazer alguém se emocionar ao ver seu nome reconhecido, em ver sua história ser contada com orgulho, em sentir que a cidade lhe é grata  enquanto o coração ainda bate.

Talvez esteja na hora de reescrever essa lógica. De dar nomes, medalhas, abraços e gratidão enquanto ainda há tempo. Porque homenagens póstumas não aquecem o peito de quem partiu. E agradecer em vida é, talvez, o gesto mais bonito que uma cidade pode oferecer.


Fonte/Autor: Por: Itaíbes Paiva

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